quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Música e os Trinta e Poucos

A música é como um ser mutante, que ao passar do tempo desenvolve novas facetas, novas características. E muitas vezes nem precisa passar uma década para se ter uma mudança considerável na música mundial, nas nuances que se tornam perceptíveis em boa parte dos trabalhos lançados.

Acostumado a conviver com a música desde criança, ouvindo meu rádio do Pato Donald, primeiro aprendi a ouvir as músicas dos meus pais. Perto dos meus 10 anos, em meados dos anos 80, passei a beber na fonte das paradas de sucesso e rádios FM. Chacrinha, rock Brasil dos anos 80, pop internacinal, Madonna, Michael Jackson (com direito a imitação e dança break), trilhas de novela, tudo vinha parar nos meus ouvidos, era entendido muito facilmente, passando a fazer parte dos meus dias, furando os discos de vinil de tanto ouvir, ou rodando o dial do meu walkman atrás das minhas músicas preferidas. Este foi o trampolim para a criação da minha identidade musical que começou a incorporar o rock, nos seus mais variados estilos, e mais tarde a MPB, blues, Jazz, Soul, Funk e R&B clássicos, assim que passei a tocar um instrumento.

Meu gosto eclético absorveu todas as mudanças da música, dos seus formatos, sua estética sonora, surgimento de novos elementos e sempre tive sede por mais. Houve épocas que além de consumir minhas bandas e artistas preferidos, muito deles consagrados, ainda partia para o garimpo de novas bandas e novas músicas, muitas delas de artistas ainda anônimos, tudo isso possibilitado com o acesso à internet, é lógico. "Toneladas" de músicas foram ouvidas por mim, mesmo ainda com internet discada, admiradas pela letra, amadas pela sonoridade, ou dissecadas instrumento a instrumento, mesmo assim, sempre havia um próximo artista, álbum, ou canção em vista.

Hoje me reconheço um tanto diferente. Me afastei dos instrumentos musicais. Gosto de ouvir coisas já adquiridas, redescubro e relembro velhos sons dos meus velhos CDs e pareço não ter pique para correr atrás de novidades. Questiono-me: essa falta de motivação é coisa da idade, ou do cenário musical atual, que não seria atraente para mim?

Não sei responder esta questão. Sinceramente. A minha vida, obviamente, também mudou muito com o passar dos anos. Casado, trabalhando em TI, adepto do sedentarismo radical, uma acomodação natural prima em se estabelecer, vai ganhando terreno e vou deixando coisas por fazer. Por isso penso se a falta de motivação não está em mim. E em contra partida, há algum tempo que novas bandas, novos artistas, novos sons não ganham minha atenção, minha admiração. Com exceção de novos trabalhos dos meus antigos preferidos, o Chickenfoot foi a única nova banda que me ganhou nos últimos tempos. E o Chickenfoot é uma banda nova, mas formada por gente já de meu conhecimento e gosto, de outras bandas e projetos.

Escrevendo agora comecei a me perguntar ainda se a questão não é eu ter me cansado de mesmices. No rock, temos por exemplo um ícone do punk rock como "The Ramones", e um monte de bandas que já se encheram de inspiração no som deles, algumas das quais eu curti na minha juventude, além dos originais. Agora temos o surgimento de várias outras bandas, muitas nacionais inclusive, com os mesmos elementos musicais, cada vez mais distantes da atitude punk original, e chamados à revelia de "emos". Independente dos rótulos, não consigo assimilar como algo novo e muito menos admirar ou gostar a ponto de consumir. Não que ache tudo um lixo. Como em todos os rótulos da música, sempre existem os bons e os péssimos debaixo do mesmo guarda chuva. A questão de fato é que mesmo as boas bandas novas não dizem muito para mim.

E ainda o mesmo acontece para outros estilos e tendências ainda mais modernas. Não consigo ver o brilho descrito por muitos críticos ou aclamado pelo público, em determinados sons e trabalhos. E fico nessa. Sinto uma necessidade de ir mudando as músicas que estou ouvindo, pensando em conseguir novidades, mas vou sempre buscando o que mais tempo faz que ouvi, dentro do meu bom e velho gosto. Pelo menos tenho um gosto eclético, senão acho que ía ficar louco...

Opiniões e comentários são bem vindos. :-D

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Nove - Ana Carolina

Ana Carolina é sem dúvida uma diva da música brasileira. Uma cantora excelente com um timbre marcante e um potencial vocal impressionante. Precisa em cada nota ela vem cantando a sua carreira, hoje totalmente consolidada e com muito mérito. Ela cantando musica de ninar, ou de ciranda já deixa a gente estupefeto, de queixo caído. Ela é incontestavelmente, absurdamente ótima.

Eu não faço coro junto com os que criticam suas composições. Não mesmo. Vejo essas críticas mais como consequência do sucesso, do que qualquer outra coisa. E no fim das contas é bom. Em geral a unanimidade é burra. É sempre muito saudável ter alguém que não goste, que critique. Particularmente falando, eu gosto muito das suas composições, seja das letras ou das músicas em si. Claro, também sem unanimidade e umas gosto mais que outras, mas no geral me agrada muito ouví-la também pelas composições. Sempre destaco uma música do álbum Dois Quartos, quando é esse o tema - segue a música abaixo. Acho perfeito o casamento da letra e da música e as imagens que a letra induz a você criar quando ouve a canção. É aquele tipo de música que eu gostaria de ter feito.

CARVÃO
(Ana Carolina)

Surgiu como um clarão
Um raio me cortando a escuridão
E veio me puxando pela mão
Por onde não imaginei seguir
Me fez sentir tão bem, como ninguém
E eu fui me enganando sem sentir
E fui abrindo portas sem sair
Sonhando às cegas, sem dormir
Não sei quem é você

O amor em seu carvão
Foi me queimando em brasa no colchão
E me partiu em tantas pelo chão
Me colocou diante de um leão
O amor me consumiu, depois sumiu
E eu até perguntei, mas ninguém viu
E fui fechando o rosto sem sentir
E mesmo atenta, sem me distrair
Não sei quem é você
No espelho da ilusão
Se retocou pra outra traição
Tentou abrir as flores do perdão
Mas bati minha raiva no portão
E não mais me procure sem razão
Me deixe aqui e solta a minha mão
E fui fechando o tempo, sem chover
Fui fechando os meus olhos, pra esquecer
Quem é você?


Estou aqui na verdade é para falar sobre o mais recente trabalho dela. Nove. Nove canções que bem poderiam fazer parte do trabalho anterior. Possuindo o padrão Ana Carolina de qualidade. Esse trabalho contou com 3 produtores e várias outras participações, incluindo o norte-americano John Legend na música Entreolhares (The way you’re looking at me) e a italiana Chiara Civello que compôs com ela Resta. Esta música eu ouvi fresquinha, num show em São Paulo há pouco mais de 1 anos atrás, quando a própria Chiara cantou com ela. Ambas músicas super pops mas sem nenhuma depreciação de qualidade. Aliás o álbum todo é muito consistente nesse quesito. Outros destaques seriam outras duas canções que fogem um pouco da linha pop, que seriam a intensa Era e Torpedo, que possui letra de Gilberto Gil.

A única coisa que o trabalho fica a dever é na duração. As nove canções ocupam menos de 40 minutos deixando a gente com gostinho de quero mais, mas fazer o quê, né? O jeito é torcer para a moça não se demorar a lançar novos trabalhos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Benditos novos modismos

Na verdade a minha idéia inicial foi falar, quase a esmo, sobre o Sertanejo Universitário. No entanto o que todos presenciamos é mais uma onda musical, que na verdade não demonstra nenhum comportamento inédito de artistas, mercado e público, mas sim a na massificação do "modismo". A diferença está justamente aí, na massificação, que não há.

Há muito que não se ouve somente uma coisa no país e duvido que volte. A onda hoje em dia é o Sertanejo Universitário, assim como também são os emos que não gostam de ser chamados de emo, e existem muito mais coisas acontecendo, permitindo a escolha. Dentro dos movimentos continua o mesmo. Investimentos (incluindo ou não o jabá), oportunismos, e destaques para alguns artistas que devem permanecer, enquanto outros verão passar seus 15 minutos de fama sem ter muito o que fazer. E dentre os que ficam podemos identiicar alguns talentos verdadeiramente valiosos.

Na verdade, os modismos atuais tendem a pegar algo e encher de elementos pop, que é exatamente o caso da nova vertente do sertanejo. Mantém-se a fórmula de se ter uma dúpla, alguns clichês nos arranjos, mas muitas músicas, dos principais artistas na mídia, são músicas que quase não se identifica o sertanejo. Ìcone do estilo e exemplo perfeito do que estou dizendo é a dupla Victor e Leo. Esta é sem dúvida a dupla mais consagrada do estilo, a mais reconhecida artisticamente falando, por comporem, tocarem e cantarem de verdade e, pelo pouco que pude ouvir, com as melhores músicas.

Quando ouvi Tem Que Ser Você pela primeira vez, nem tinha ouvido nenhuma música da dupla que eu soubesse que era deles. Esta então, não poderia nem sonhar. Ela é muito diferente de tudo que já tinha ouvido do sertanejo, pois é uma música pop, em todas as suas características.

Fora os oportunistas de plantão, que existem e não são poucos, na música, se tratando de música e não de verdinhas, tudo é válido.

Falando de modismos, oportunismos e a fins, como ilustração, posto esta canção que vm bem a calhar:

PRÉ-PÓS-TUDO-BOSSA-BAND
Lenine - Zélia Duncan

Todo mundo quer ser bacana
Álbuns, fotos, dicas pro fim de semana
Filmes, sebos, modas, cabelos
Cabeça-feita, receitas perfeitas
Descobertas geniais
Todo mundo acha que é novo
Tribos, gírias, grifes, adornos
Ritmos exóticos, viagens experimentais
Pré-pós-tudo-bossa-band
Mente que sempre muito bem
Pré-pós-tudo-bossa-band
Gosto que me enrosco em quem?
Pré-pós-tudo-bossa-band
Não sei, mas tô dizendo amém

Todo mundo quer ser da hora
Tem nego sambando com o ego de fora
Caras, bocas, marcas estilos
O ó do bobó, o rei da cocada
A pedra fundamental
Todo mundo quer ser de novo o novo
O ovo de pé, o estouro
Ícones atlânticos
O dono da voz crucial

Pré-pós-tudo-bossa-band
Não ví, mas sinto que já vem
Pré-pós-tudo-bossa-band
Moderno, eu não te enxergo bem
Pré-pós-tudo-bossa-band
Tá cego, mas tá guiando alguém


MÚSICOS

ARRANJO: Christiaan Oyens e Celso Fonseca
VOZ: Zélia Duncan
SAX BARÍTONO E FLAUTAS: Léo Gandelman
ARRANJO DE SOPROS: Léo Gandelman
GUITARRA: Celso Fonseca
TECLADO HAMMOND: Humberto Barros
BAIXO: Marcelo Mariano
PERCUSSÃO: Parede
ZABUMBA E TRIÂNGULO: C. A.
REPIQUE E TRIÂNGULO: Celso
CALOTAS E TRIÂNGULO: Sidon

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Indústria Musical vs. Internet Livre

É sim um assunto delicado. Diversos desdobramentos, pontos de vista e coerência de ambos os lados envolvidos. Na verdade o que paira é um embate que ainda levará tempo para se definir, sem que seja possível prever de que lado a corda vai estourar. Sempre estoura do lado do mais fraco, certo? Mas qual lado é o mais fraco?

Algo que sempre precisa ser lembrado, pois às vezes parece que é esquecido, música é arte. E como arte, o objetivo de ela existir, do artista criá-la é qual? Não estou dizendo que não seja justo o artista viver da sua arte, ganhando dinheiro com ela, muito pelo contrário. Além do que, ganhar dinheiro com arte não é uma invenção moderna. Só que não havendo antigamente o recurso da gravação, a profissão era mais direta, do artista para o público.

Com o advento da gravação surgiu depois de muito tempo a famigerada indústria da música que, até antes da popularização da internet, era uma e depois começou a sofrer grandes impactos. As grandes gravadoras, chamadas de majors, detinham todo o negócio nas mãos. Um artista não se fazia por si só, sem uma grande gravadora empresariando, divulgando e contando as cifras. O jabá parecia de certa forma ser bem aceito e pouco falado, muito menos assumido. Assim foi fácil ter os modismos que existiram antigamente que não davam brecha para o muito mais além do que as gravadoras quisessem manter foco.

Falando assim parece até que defendo que as majors são a sucursal do inferno, né? Não é bem assim... Falarei mais adiante sobre isso.

Antes preciso comentar da revolução promovida pela internet e novas tecnologias. Pare e pense bem como eram as coisas antes de você começar a usar a internet. Como fazia para você ouvir as músicas que gostava, descobrir novas músicas e artistas e comprar música. Percebe? A primeira coisa é que antes, praticamente a música chegava até o público, na maioria das vezes enfiada goela abaixo, e hoje o público corre atrás. Os meios de divulgação restritos permitiam as gravadoras controlar melhor o consumo e com a internet livre, cada um ouve o que quer, quando quer e como quer. Os artistas também ganharam um canal amplo de divulgação de seus trabalhos e, somado às tecnologias de gravação que também se tornaram mais simples e acessíveis, foi promovida uma verdadeira quebra de paradigmas. E com isso a atuação da indústria da música mudou, certamente, muito a contra gosto.

Elas não ganham tanto com a massificação, já que não têm mais esse controle. Ganham mais com alguns poucos arqtistas fixos, financeiramente viáeis, novos lançamentos e explorando pequenos nichos. E na outra mão, hoje é muito fácil ser imdependente. Até a divulgação do trabalho se torna eficaz pela internet e, mesmo sendo inegável o poder que as gravadoras ainda têm, elas tomaram algumas rasteiras. O golpe foi duplo pois, as novas tecnologias promoveram a alforria dos artistas e também impactou as vendas, pois nunca foi tão fácil piratear música.

Aqui entramos na questão do que é pirataria, que também abordarei depois.

Queria só fazer uma parte aqui de algo que eu vejo acontecer há um bom tempo e acho curioso. Está mudando, claro, a percepção é nítida. Hoje, principalmente graças à popularização do Twitter. Estou falando da interação dos artistas com a internet e novas tecnologias. Eu pergunto, desde quando ser artista significou ser retrógrado e antiquado? Não havia um tempo que ser artista era ser de vanguarda? Não era ser associado com algo moderno, instigante, revolucionário? Quase sempre associado à subversão, à quebra de paradigmas como a internet promoveu? Então... Me soa muito estranho que por muito tempo tantos artistas, e muitos ainda hoje, estejam fora da rede. Seja para utilização com questões profissionais como para questões pessoais. Muitos parecem ter verdadeira fobia e associam até a uma imagem meio pejorativa. Parafraseando Marcelo Tas no programa da Fernanda Young no GNT: A internet não é uma rede de computadores, mas sim uma rede de pessoas. A internet e essas novas tecnologias representam hoje a inovação com a qual os artistas deviam estar comungando. Se assim fosse talvez até as questões pendentes desta discussão hoje em dia já estivessem mais encaminhadas.

A conclusão desse pensamento é a chave de tudo ao meu ver.

Alinhavando melhor o meu ponto de vista, tenho o seguinte a dizer. O direito autoral sempre proibiu a cópia de músicas sem autorização. Mesmo quando a cópia era em fitas K7. O que mudou foi o impacto no bolso das pessoas. É caro gravar, mixar, masterizar, prensar e distribuir um álbum. Do início ao fim do processo inúmeros profissionais da música, fotografia e artes plásticas são acionados para ter um CD numa loja, sem contar todas as questões comerciais e de logística. As gravadoras têm que pagar todo mundo e ainda ter lucro com um produto que, ali na esquina, tem um quase igual, muito mais barato, com uma menor qualidade no que diz respeito à apresentação sim, mas na questão sonora em si é idêntico. Não adianta inventarem que produto pirata necessariamente estraga o aparelho de som, te deixa surdo e te faz ficar brocha. É mentira. Sempre achei ridículo as pessoas pregando isso, alguns até meio que inocentemente, diante da sua fobia de tecnologia. A questão dos piratas é que a ilegalidade do produto não permite um controle de qualidade muito sofisticado, mas tenham certeza que a grande maioria do público que comprou ficou satisfeito com o seu produto "alternativo".

O direito autoral não é só um direito constituído por lei. É um direito ético que deve ser respeitado e realmente a primeira frente nociva que prejudica os músicos e todos os operários da música é a pirataria que vende um produto sem autorização. Aí é de cara uma quebra de ética, e não só da lei, a venda e aquisição de produtos dessa natureza, com um impacto direto. Afinal estão ganhando dinheiro em cima da arte de outras pessoas que ficam a ver navios sem esse retorno. E aí não importa como chega ao público. Se num CD que o cara compra na esquina, ou se ele baixa de um site, de forma gratuita, mas que o dono do site faz dinheiro com propagandas. Esse é o primeiro nível de pirataria, que deve ser combatido de imediato.

No entanto a controvérsia que está surgindo com este assunto é porque ele sempre cai na liberdade da internet e na troca de músicas sem fins lucrativos. Aí a questão tem muitas nuances e opiniões diferentes para se qualificar o que pode e o que não pode. Nunca ninguém ficou muito estressado com a troca de músicas entre amigos, principalmente antes da digitalização da música. E mesmo agora, tem gente que ache ser uma boa forma de divulgação, outros não aceitam de jeito nenhum. A lei diz que sem permissão do artista não pode, mas esbarra, com a internet, em problemas de jurisdição, pois a música pode estar lá num servidor na rússia para download, e também problemas de dificuldade de ficalização. Legal e eticamente falando, a autorização seria primordial.

A perda de dinheiro de um lado complica na outra ponta. Todo mundo diz que o preço do produto precisa ser mais barato, mas como? Se as vendas não estão bem, há menos dinheiro. Com muitos artistas livres das gravadoras, usando-as somente para distribuição, há menos dinheiro. A forma seria reduzir custos. Com pessoal, arte gráfica e a tendência seria o produto ficar mais próximo do pirata. Um dos argumentos dos amantes do vinil é que com o CD se perdeu muito em arte gráfica, mas não foi só uma questão de espaço físico. Eu já comprei CDs com encartes muito ricos, mas cada vez mais eles vão ficando mais simples, a concorrência é muito cruel. E como reduzir ainda mais os custos se, em crise, as gravadoras já tenham feito o possível?

É aí que não vejo as majors como vilãs e ponto final. A indústria tem seu lado ruim porque ela tem que mudar, as grandes gravadoras têm que parar de remar contra a correnteza e encontrar um meio de aproveitá-la, revendo não somente sua esperança em recuperar a margem de lucro, mas alternativas novas de negócio. A venda de música está mudando e todos ficam muito presos e enraizados em certas formas obsoletas como se simplesmente isso não pudesse ser mudado. Precisa existir o CD vendido como hoje, por exemplo? Não estou defendendo uma direção específica, estou defendendo a discussão. O raciocínio a respeito em busca de boas idéias. A indústria tem focado em combater algo controverso que é a troca de músicas entre pessoas sem fim lucrativos, ao invés de lutar para combater a pirataria explícita. Enquanto as autoridades não forem devidamente cobradas, ainda continuará a ter policiais parando na banquinha para comprar CD pirata, por exemplo. Não tenho os dados estatísticos, mas levando em conta a situação socio-econômica do povo brasileiro eu me pergunto: o prejuízo é maior com o que, a troca de arquivos por usuários de internet, ou a venda de CDs e sites não autorizados com fins lucrativos.

Os artistas também são prejudicados pela redução das vendas. Acabam voltando a depender muito dos shows, o que pode inclusive encarecer seus cachês levando a se exigir mais dinheiro do público para assistí-lo. E mesmo sofrendo não só pela quebra do direito autoral, mas também pela redução do retorno financeiro, não se vê uma união dos artistas em função disso. A verdade é que a chave de tudo está nas mãos deles. Músicos, cantores e compositores, unindo-se em massa, expressivamente, conseguiriam discutir e chegar nos moldes que primariam pelos direitos autorais e financeiros, assim como sem deixar de lado a arte em si. E conseguiriam impor ao mercado, ao legislativo e ao público quais seriam as regras.

O que acontece, na verdade, tristemente é que você tem muito boas opiniões isoladas, mas todos estão que alguém resolva a questão por eles. Reclama-se das gravadoras, das autoridades, do ECAD, da Ordem do Músicos, mas são estas instituições que vêm regendo as regras e lutando por interesses que, sim, nem sempre são os interesses dos artistas efetivamente, mas em fim, os artistas estão vendo a banda, a internet, a pirataria passar e ficam sentados só constatando o que já é fato, ao invés de ter uma atitude pro-ativa para o futuro. Uma andorinha só não faz verão, mas se todos se unissem verdadeiramente, e a internet possibilitaria isso em nível nacional inclusive, dificilmente as autoridades, gravadoras e opinião pública deixariam de ouvir. Os artistas fazem a música, ou seja, os artistas deveriam tomar as rédeas e decidir o seu interesse. Propondo mudanças, fazendo cobranças. Com o histórico que o Brasil tem, na época da ditadura e tal, era de se esperar outra postura.

Como disse, isso se arrastará por muito ainda. E quem vencerá a queda de braço? Só o tempo vai dizer...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Toca Raul!

Li uma matéria interessante do G1, sobre o consagrado "Toca Raul!" que muitos cantores e músicos ouvem e muito, em seus shows Brasil afora. É realmente muito interessante, um verdadeiro fenômeno espontâneo, impressionante.

Não precisou de "jabá", de major promovendo o nome, da divulgação do próprio artista, e nem de um novo modismo da internet para esta expressão chegar aos ouvidos das pessoas em todos os cantos do país. Bastou existir Raul Seixas. Bastou ele produzir uma obra consistente e de muita força. Coisas do Rock'n'Roll. Com ajuda de um visual emblemático, muita atitude, um lirismo muito particular e canções bem diretas, ele conseguiu a consagração que cresceu muito depois do seu falecimento.

E o interessante é que o público faz os artistas de refém, e na preocupação de atender os pedidos, muitos guardam na manga ao menos uma canção do Raulzito para não ficar mal na foto. Claro que isso acontece muito mais com músicos anônimos, que fazem barzinho, do que com artistas consagrados, de qualquer forma ninguém está imune. E que assim seja!

Portanto... TOCA RAUL!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Todas elas num só ser (Lenine / Carlos Rennó)

Quando o som é do bom, e o significado, as palavras são pura poesia, temos que nos render... Apreciar, se inspirar e nos deixar levar pela magia, pelas imagens, pelos sentimentos... A canção nos envolve, música fluindo no corpo, os versos pulsando no coração e pipocando boca a fora em alto e muito bom som... Estes são Lenine e Carlos Rennó, reverenciando os mestres apaixonados da poesia, e a musa deles nesta canção do álbum InCité do Lenine, de 2004.


Todas elas num só ser
(Lenine / Carlos Rennó)

Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Não canto mais Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;

Nem a Tigreza nem a Vera Gata
Nem a Branquinha, de Caetano;
Nem mesmo a Linda Flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science -
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, do Los Hermanos.

Só você, hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.

Não canto de melô Pérola Negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a Baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a Faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a Garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a Doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato,
E da Layla, de Clapton, eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-Ma-Belle, do Beatle Paul;
Nem Isabel - Bebel - de João Gilberto;
E nem B.B., La Femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na Malafemmená;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a Mulata Mulatinha de Lalá;

E nem a Carioca de Vinicius
E nem a Tropicana de Alceu
E nem a Escurinha de Geraldo
E nem a Pastorinha de Noel
E nem a Namorada de Carlinhos
E nem a Superstar do Tremendão
E nem a Malaguenha de Lecuona
E nem a Popozuda do Tigrão

Só você,
Elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do Stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a Mina do Mamona Dinho
E nem as Mina - pá! - do Mano Xis!

Loira de Hervê e Loira do É o Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Arnaut Daniel, o trovador;
Ana do Rei e ana de Djavan,
Ana do outro Rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.

Só você,
Rainha aqui só você,
Só você,
A musa dentre as musas de a a z.

Se um dia me surgisse uma dessas
Moças que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho;
Ou Mabellene e a Sixteen de Chuck Berry,
E a manequim do tímido Paulinho;

Ou como, de Caymmi, a Moça Prosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse apenas uma dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida:
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas... Mas não mais que três...

Só você...
Mais que tudo é só você;
Só você...
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a Rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.

Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a Gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a Cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna para Ventadorn, Bernart;
Que a Honey Baby para Waly Salomão
E a Funny Valentine pra Lorenz Hart.

Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

End Of The Century - Ramones

Segundo o próprio Johnny Ramone (guitarrista): "It's a very dark movie. It's accurate. It left me disturbed".

End Of The Century é um documentário sobre a história dos Ramones, contada por eles próprios. O filme de 2003 reuniu todos os músicos que integraram a banda desde seu surgimento em 1974 até o seu final em 1996, em depoimentos contando a tudo do início ao fim. O filme retrata a história da banda e seus integrantes até 2002, quando entraram para o Salão da Fama do Rock and Roll, quando o vocalista Joey Ramone já tinha falecido (2001, com câncer linfático) e meses antes do falecimento do baixista da primeira formação Dee Dee Ramone. Os demais integrantes inclusos, além dos três já citados são: Tommy Ramone (baterista da formação original), Marky Ramone (baterista), Ritchie Ramone (baterista), C. J. Ramone (baixista). Veja aqui maiores informações sobre os integrantes e as formações da banda.

Voltando à declaração do Johnny sobre o documentário, realmente percebe-se que é preciso, afinal, os próprios integrantes estão contando, e não há divergências com relação aos fatos, não existem contradições e aí é que este filme me pegou.

Acho que não é muito comum de se pensar que uma banda de rock como a dos Ramones, banda punk, seja o que você percebe neste filme. Logo se imagina aquela coisa de sexo, drogas e rock'n'roll, anarquia total e não é bem por aí. Problemas realmente sérios com drogas e álcool, somente dois integrantes tiveram, Dee Dee (que inclusive morreu de overdose) e Marky respectivamente. Existiam drogas entre eles sim, mas acaba ficando fora do foco. O que chama realmente a atenção é a relação entre os integrantes. Um misto de respeito e ressentimentos, como se eles não explodissem, não brigassem entre si e fossem guardando uma série de frustrações pessoais. O Joey mesmo perdeu uma namorada para o Johnny, algo que pelo que foi mostrado no filme, foi muito sério e ruim para o Joey, mas mesmo assim não brigaram e seguiram em frente.

Acho que o Johnny comentou que mexeu com ele, justamente por causa disso. Ao final da banda, após o último show, eles todos praticamente nem se falavam mais direito, sequer se despediram e foram cada um para o seu canto. O Johnny aparece sempre muito tenso, aparenta um leve pesar de não ter ido sequer uma vez visitar o Joey quando ele estava com câncer.

Ele tinha uma figura na banda que você nem imaginaria que fosse assim. Passa ser alguém muito sério e rígido, ao contrário do Joey que aparenta seriedade, mas com um coração mais receptivo. O Johnny não, ele já aparenta ter problemas em demonstrar emoção. Ele pôs fim na sua delinquencia ainda jovem por ter percebido que tinha passado todos os limites. Vê-se no rosto dele quando ele conta que houve algo muito sério, apesar de não expor detalhes. Realmente percebe-se que rever toda essa história afetou muito ele.

No fim das contas foi surpreendente, até certo ponto, assistir este filme e é muito bom conhecer um pouco melhor a história destes caras. Sem falar em ver e ouvir eles mandando ver no palco. One, two, three, four... E paulada! Gostei bastante do vídeo e por fim, só resta mais uma coisa a dizer...

Hey! Ho! Let's go!